Chimpanzés Usam Insetos Para Tratar Feridas

Chimpanzés em uma floresta da Tanzânia
Chimpanzés observados em ambiente florestal. Foto: Amani Allan/Pexels.

Durante muito tempo, a ideia de que um animal pudesse tratar uma ferida parecia pertencer ao território da imaginação. Aceitava-se que algumas espécies comessem plantas com propriedades medicinais, mas aplicar deliberadamente uma substância sobre um machucado parecia exigir um nível de compreensão difícil de demonstrar. Observações recentes de chimpanzés selvagens, porém, tornaram essa fronteira muito menos nítida.

Em comunidades acompanhadas por pesquisadores na África, indivíduos foram vistos capturando pequenos insetos, imobilizando-os entre os lábios e aplicando o material diretamente sobre feridas abertas. O comportamento chamou atenção não apenas porque foi repetido, mas porque também ocorreu em situações nas quais um chimpanzé tratou o ferimento de outro. Isso transforma uma curiosidade isolada em uma pergunta maior: esses primatas desenvolveram uma forma própria de cuidado médico?

O que os pesquisadores realmente observaram

O procedimento é surpreendentemente organizado. Primeiro, o chimpanzé percebe o inseto em movimento. Em seguida, captura o animal, aperta-o cuidadosamente com os lábios e usa os dedos para posicioná-lo sobre a área machucada. Em alguns casos, o inseto é retirado e aplicado novamente. Não parece uma ação aleatória, porque o material é colocado justamente onde existe uma lesão visível.

Registros anteriores haviam documentado esse comportamento em chimpanzés da África Central. Em 2025, cientistas relataram observações semelhantes na população de Ngogo, no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, formada por chimpanzés orientais. A existência da prática em comunidades geograficamente separadas fortalece a possibilidade de que ela não seja apenas uma mania local de um único grupo.

Ainda não se sabe qual espécie de inseto é escolhida nem se ela realmente libera compostos capazes de reduzir inflamações, combater micróbios ou aliviar a dor. Essa cautela é importante. Observar um tratamento não significa comprovar sua eficácia. Mesmo entre humanos, práticas tradicionais podem existir por muito tempo antes de a ciência determinar se funcionam, não funcionam ou produzem apenas um efeito limitado.

Automedicação não é exclusividade humana

A natureza já oferece vários exemplos de animais que alteram o próprio comportamento quando estão doentes. Algumas lagartas procuram plantas com substâncias tóxicas para enfrentar parasitas. Certos pássaros esfregam formigas nas penas, possivelmente aproveitando o ácido fórmico contra organismos indesejados. Grandes primatas engolem folhas ásperas quase inteiras, uma estratégia que pode ajudar a expulsar parasitas intestinais.

Chimpanzés também mastigam plantas amargas que normalmente evitariam. O detalhe decisivo é o contexto: indivíduos debilitados procuram determinados vegetais em momentos específicos e depois apresentam sinais de melhora. Esse conjunto de comportamentos recebe o nome de zoofarmacognosia, o estudo de como os animais utilizam substâncias naturais para prevenir ou enfrentar problemas de saúde.

A aplicação de insetos em feridas amplia o fenômeno porque envolve uma sequência mais complexa. O animal precisa reconhecer a lesão, selecionar um organismo pequeno no ambiente, manipulá-lo e colocá-lo no ponto correto. Quando o procedimento é feito em outro indivíduo, surge ainda uma dimensão social.

O cuidado com o outro

Chimpanzés vivem em sociedades marcadas por alianças, disputas, reconciliações e relações familiares duradouras. Eles compartilham alimentos, adotam filhotes órfãos e consolam parceiros depois de conflitos. Tratar a ferida de um companheiro combina com essa capacidade de perceber o estado de outro membro do grupo, embora os cientistas evitem transformar toda ajuda em uma prova automática de empatia humana.

O mais interessante é que um benefício imediato para quem realiza a aplicação não é evidente. O cuidador gasta tempo, aproxima-se de uma lesão e manipula um inseto sem receber comida ou proteção naquele instante. A recompensa pode aparecer mais tarde, por meio do fortalecimento de vínculos sociais. Em sociedades complexas, ajudar um aliado hoje pode significar receber apoio amanhã.

Também existe a possibilidade de aprendizado social. Um jovem que observa adultos tratando ferimentos pode copiar a sequência e, aos poucos, aperfeiçoá-la. Se comunidades diferentes usam insetos distintos ou técnicas próprias, poderemos estar diante de tradições transmitidas entre gerações — algo próximo do que os pesquisadores chamam de cultura animal.

Por que identificar o inseto é tão importante

O próximo passo é descobrir exatamente quais organismos estão sendo utilizados. Alguns insetos produzem substâncias antimicrobianas para proteger o próprio corpo, os ovos ou o ninho. Formigas, besouros e outros artrópodes carregam compostos químicos capazes de inibir fungos e bactérias. Isso não significa que qualquer inseto seja medicinal, mas torna a hipótese biologicamente plausível.

Uma identificação segura permitiria comparar a composição química do inseto com os microrganismos presentes nas feridas. Os cientistas também poderiam acompanhar a cicatrização, verificando se lesões tratadas apresentam menos infecção ou fecham mais rapidamente. Esse trabalho precisa ser realizado sem interferir excessivamente na vida dos animais, porque a força das observações está justamente no fato de ocorrerem em condições naturais.

Há ainda um cuidado ético: o objetivo não é ensinar pessoas a capturar insetos e aplicá-los em machucados. Feridas humanas exigem limpeza e orientação adequada. O valor da descoberta está em compreender como outra espécie explora a farmácia química da floresta e como esse conhecimento pode inspirar novas perguntas científicas.

Uma janela para a origem da medicina

Quando pensamos na medicina, imaginamos hospitais, remédios fabricados e diagnósticos sofisticados. No entanto, a raiz desse comportamento pode ser muito mais antiga: perceber que algo está errado, procurar um recurso no ambiente e utilizá-lo para aliviar o problema. Se os chimpanzés fazem isso de maneira deliberada, parte dessa capacidade talvez já existisse no ancestral compartilhado por humanos e outros grandes primatas.

A descoberta não transforma chimpanzés em médicos em miniatura. Ela revela algo mais interessante: inteligência e cuidado podem surgir em graus diferentes, combinando instinto, experiência individual e aprendizado coletivo. Cada nova observação diminui a distância rígida que costumávamos colocar entre “comportamento animal” e “conhecimento”.

A floresta ainda guarda o detalhe decisivo. Qual é o inseto? O que existe em seu corpo? A aplicação realmente acelera a recuperação? Até que essas respostas cheguem, a cena permanece extraordinária: um chimpanzé encontra uma pequena criatura entre as folhas e a transforma em uma ferramenta de cuidado.

Fontes: estudo publicado na Scientific Reports e registros de campo sobre automedicação em grandes primatas.