
Uma explicação ensinada durante décadas para o surgimento das sociedades de formigas, abelhas e vespas acaba de ser submetida a um teste de grande escala. O resultado indica que um sistema genético específico, chamado haplodiploidia, não explica sozinho a evolução dessas colônias.
Quase 69 mil espécies analisadas
Pesquisadores da Arizona State University cruzaram dados genéticos e informações sobre comportamento social de dezenas de milhares de espécies. Inicialmente, parecia existir uma ligação entre haplodiploidia e sociedades complexas.
Porém, quase todo o sinal estava concentrado em uma única linhagem: o grupo que reúne formigas e as abelhas e vespas com ferrão. Fora dele, o sistema genético não aumentou de forma clara a probabilidade de surgir eusocialidade.
Ambiente e modo de vida ganham importância
Os resultados apontam para uma combinação de fatores, como construção de ninhos, presença de ferrões, ambiente e história evolutiva. A descoberta não elimina o papel da genética, mas mostra que a origem das colônias cooperativas é mais complexa do que uma única regra.
O que caracteriza uma sociedade eusocial
Colônias de insetos sociais não são apenas grupos vivendo no mesmo lugar. A eusocialidade costuma reunir três características: cuidado cooperativo com os filhotes, convivência entre gerações e divisão reprodutiva do trabalho. Em muitas espécies, uma rainha concentra a postura de ovos, enquanto operárias realizam tarefas de defesa, construção e alimentação.
Esse nível de cooperação surgiu poucas vezes na história evolutiva, mas produziu algumas das sociedades animais mais numerosas do planeta. Entender sua origem ajuda a explicar como a seleção natural pode favorecer indivíduos que abrem mão da própria reprodução para auxiliar parentes.
Por que a haplodiploidia parecia uma resposta
Em muitos himenópteros, as fêmeas nascem de ovos fecundados e possuem duas cópias de cada conjunto cromossômico, enquanto os machos surgem de ovos não fecundados e possuem apenas uma. Esse sistema pode criar padrões de parentesco incomuns dentro da colônia.
Durante décadas, pesquisadores investigaram se essa proximidade genética favoreceria a cooperação entre irmãs. A hipótese oferecia uma explicação elegante, mas sempre enfrentou exceções: existem espécies haplodiploides solitárias e sociedades complexas em animais que utilizam outros sistemas genéticos.
A árvore evolutiva pode enganar uma comparação
Espécies aparentadas compartilham muitas características porque herdaram uma história comum. Se grande parte dos casos de eusocialidade estiver concentrada em um único ramo, uma análise simples pode atribuir o resultado à haplodiploidia quando outros traços daquele grupo também estão envolvidos.
Ao controlar melhor esse parentesco, o novo trabalho reduz a força de uma explicação única. Ninhos defensáveis, alimentação das larvas, longevidade das fêmeas, ambiente e capacidade de proteger recursos podem ter atuado em conjunto. A principal conclusão é que as sociedades de insetos não nasceram de uma fórmula isolada, mas de diferentes condições que se reforçaram ao longo do tempo.
Fonte: Arizona State University e Current Biology, divulgação de 4 de agosto de 2026. Consultar a pesquisa.
